Poesia Marginal: Da geração do Mimeógrafo dos Anos de Chumbo, aos Zines xerocados de hoje – Estação AmeopoemA

            O que você anda lendo? Gosta de Poesia? Vou além… você sabe o que é Poesia Marginal? Sabia que o grande cenário poético atual não figura nas grandes editoras, não está nas prateleiras das grandes livrarias e você pode ter acesso a esse material riquíssimo nos perfis e páginas das mídias sociais, saraus, bares, esquinas e que o Fanzine, ou, mais precisamente o Zine, na maioria das vezes, é a primeira publicação desses poetas e poetisas? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Calma! Se você já sabe de tudo isso, sei que tem lido muita coisa boa, já você que não sabe, agora vai ficar sabendo e te garanto que vai curtir a coluna, pois um dos meus propósitos aqui no Beco Literário é tratar sobre a Literatura Marginal e seus agentes mais contemporâneos e atuantes, portanto já que vamos tratar de poesias e zines, adianto que esta publicação artesanal perde o prefixo “fan” quando não há objetivo de homenagear um determinado “ídolo” e passa a ser uma publicação autoral, ou que trate de um tema que não tem a ver com homenagem a uma determinada figura pública, por isso, aqui trataremos dos Zines.

          A Literatura Marginal foi assim conceituada na década de 70 e tem como principais autores dessa época, Leminski, Torquato Neto, Chacal entre outros. Óbvio que muitos não chegaram sequer a serem conhecidos publicamente, digamos que para cada poeta que tem seu trabalho reconhecido, dez moleques saem da várzea para o Futebol profissional, uma estatística exagerada que criei aqui para dar a dimensão da enrascada que era/é se meter a escrever objetivando algum lucro nisso, por menor que seja. No meu caso de maior sucesso, já recebi umas cervejas em troca de um, ou outro livro meu e não há demérito nisso, que fique claro, e voltando ao nosso assunto, a Literatura Marginal influenciou toda uma geração de artistas no Brasil, não só na própria Literatura, mas também na Música, Dança, Artes Plásticas e demais linguagens artísticas, porém como nosso enfoque aqui são os zines de poesia, vamos dizer que estes são netos dos livretos produzidos artesanalmente pela “Geração do Mimeógrafo”, que ficou assim conhecida por conta dos livros produzidos e reproduzidos naquele trambolho em que na década de 70, 80 e 90 rodavam as provas escolares da galera da minha geração e gerações anteriores. No média – metragem “A Lira Pau – Brasília: A Geração do Mimeógrafo e os Poetas Marginais de Brasília na Ditadura Militar”, Nicolas Behr diz que “ A Geração do Mimeógrafo tirou o terno e a gravata da poesia”, talvez eu não tenha ouvido, ou sequer imaginado uma definição melhor para a poesia marginal, e para você que não sabe do que é,  pergunte aos seus pais o que era esse tal “mimeógrafo” que eles, certamente, vão dar uma risadinha dizendo: “É… na minha época blá… blá… blá.” Eu confesso que quando tive contato com um, cheirei tanto álcool que rolou uma onda, sem exagero.

Como são feitos e o que são os Zines?

          São diversas as possibilidades de confeccionar Zines. Podem ser manuscritos, digitados, impressos e xerocados. Há uma série de técnicas para estilizar cada livreto, ou folheto, o autor “zineiro”, escolhe como prefere, enfim. Eu conheci o Zine e fiz o meu primeiro no ano de 2007, quando estudava no Centro do Rio de Janeiro e lá mesmo dobrava uma folha de papel A4, escrevia uns poemas e xerocava para vender, ou mesmo trocar pelo que rolasse, geralmente aceitava uma contribuição espontânea só para pagar a xerox mesmo. Hoje, dez anos depois, as coisas mudaram um pouco, porém a essência continua a mesma e cada vez mais os zines vão ganhando modelos, materiais e formatos diferentes, os mais comuns são de poesias, mas também se encontra com contos, quadrinhos e outros gêneros literários e uma das galeras mais resistentes desse cenário é o pessoal do “AmeopoemA”, que tem ponto entre a porta do Centro Cultural Banco do Brasil  e Cinelândia. Nelson Neto, Shaina, Dy Eiterer, David, Paulinho, Rômulo Ferreira, Luiz Silva e outras figurinhas fáceis por ali já ofereceram suas poesias para milhares de pessoas naquele local. Segundo Rômulo Ferreira, o AmeopoemA é:

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Grupo de leitura e proliferação poética e artística!

Criado em junho de 2010, a partir de uma forma física que era o  ZINE AMEOPOEMA, veioa vida  este grupo que tem a intenção de facilitar a proposta de ser lido e divulgar os trabalhos de amigos e desafetos!

Temos três formas de espalhar poesia pela cidade:

1-    Zine mensal impresso AMEOPOEMA, que está em sua 47 edição.

2-    Sarau AMEOPOEMA, rede de leitura e troca de ideias em praças públicas de todo o território nacional.

3-    Página em rede social, onde todo autor e leitor podem interagir de forma mais direta.

Criado por Rômulo Ferreira e Bárbara Barroso. O AMEOPOEMA, vem atuando de forma independente e sem ajuda de custos de lei alguma, vivemos basicamente da colaboração de amigos e alguns passantes de onde os eventos acontecem.”

          Eu, Guarnier, este humilde poeta, já considero parte do imaginário poético daquele canto da cidade e um dos patrimônios do Centro do Rio e você que vier dar uns roles por aqui, tem que passar lá, comprar seu zine e beber dessa poesia, para você que nem pretende pisar estas terras, mas que gostaria de conhecer o trampo, é só dar uma conferida na página do Facebook deles que deixarei no final da coluna. E pra deixar um gostinho do tempero desses poetas nada melhor que  Poesia! Então: “Gosta de poesia, Senhor? Gosta de poesia, Senhora?” Com vocês: AmeopoemA!

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Hoje o sol nasceu vermelho
escondido nas ideias que tive
sobre inventar verdades
sobre a esperança

sobra a sorte
de ter
ou não ter fe na vida

vem cá,
olha em meus olhos
diga que veio pra sempre.

diga que estávamos errados.

estou aqui

me avermelhando nesse sol
esperando
e fumando o resto do cigarro
que a gente arrumou
naquela transação dos infernos…

maldito dia aquele
maldito sono

acordamos cedo

e ainda nem acabou a noite

–Rômulo Ferreira

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-Rômulo Ferreira

Naufrágio II

Naufrágio II

Abandonando o cais,

Lanço-me no sem fim azul

Como um navio que escorrega no mar.

Ele percebe a beleza, a força,

Mas não pode prever a profundidade.

Por isso só segue nas horizontais.

Porque não saberia lidar

Com o que desconhece.

Talvez seja medo.

Talvez despreparo.

Um quê de insegurança.

Um muito de vontades aplacadas

Pelo sussurro do vento

Que dá calmaria, mas alerta:

Seu naufrágio é necessário

-Dy Eiterer

NElson Neto, foto de conrado gonçanves

ACHO QUE ESTAREI SALVO

ENQUANTO TIVER DIAS DE MÁXIMA EUFORIA

POR QUALQUER COISA QUE ME ABSTRAIA!

ACHO QUE GANHO TEMPO

AO ME ENFRENTAR NO ESPELHO

SEM NEM AO MENOS SABER QUAL FOI À PERGUNTA DE UM MILHÃO!

ACHO QUE DESESPERO ATOA

QUANDO NÃO CONSIGO TER ESPERANÇA APARENTE OU MEDO QUE O VALHA!

FUJO MAS NÃO COM TEMOR,

SÓ POR NÃO TER NADA PRA FAZER POR LÁ.

-Nelson Neto

Link da página do AmeopoemA: https://www.facebook.com/ameopoema/?fref=ts

Tal qual rotoscopia
Peixinho de ouro de buendia
Daguerrotipo de Remédios
Amendoeiras em flor

Querência que se escapa de propósito
Saudade doce que inflama
Suor frio quando adentras o recinto

-Nelson Neto

Foto: Conrado Golçalves

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3 comentários em “Poesia Marginal: Da geração do Mimeógrafo dos Anos de Chumbo, aos Zines xerocados de hoje – Estação AmeopoemA

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