Domingo: um primeiro com moral de último

Se um dia viver um grande amor,
Não cobrarei fidelidade, carícias loucas nem declarações engenhosas.
Direi apenas: fica comigo aos domingos. Fica?
-Ni Brisant

          A poesia é um estado da alma e ela nem sempre busca um sentido linear para as coisas que quer exprimir. Poesia é o Id despistando a todo o tempo os superegos literários que tentam regrar aquilo que é essencialmente livre e bandido. Escrevi certa vez num dos meus poemas que a poesia é “uma criança correndo pelada pela casa depois do banho” e a gente fica ali gritando: “Cuidado!”, “Vai cair!”, “Volta aqui!”, mas ela continua rindo e debochando da nossa cara. Por isso o poeta é esse desregrado que para o que está fazendo para escrever. Fica preso num poema e admite isso publicamente simplesmente com um: “Desculpa o atraso, tive um contratempo!” O poeta fala mal das coisas, dos livros, dos cafés fracos, dos amores fortes. O poeta se sente um semideus e continua debochando das próprias palavras, das horas, dos dias e acha graça da própria desgraça fazendo do seu calvário a piada do momento. O poeta é isso tudo, mas nunca vai admitir. Estampa um sorriso no rosto e continua a fingir… fingir e fugir.

            Um dos grandes poderes que o poeta tem é criar eufemismos para amenizar a própria dor e minimizar a derrocada dizendo que:

Tudo vale a pena

 se não vira amor

vira poema

(Juliana Motter)

É Mentira, mas é lindo!

Como poeta eu tento colher minhas impressões através do que leio dos outros poetas. Se consigo me enxergar nas palavras deles e quando vejo técnica demais naquilo, bato  palmas, mas nada sinto. Ainda prefiro o intenso, eu sou mais a inspiração, do que a transpiração e que Drummond me perdoe, pra mim a poesia é ter o primeiro sol em escorpião e “quando o segundo sol chegar…” também.

          Um dos caras que mais me apedrejam a alma na hora da leitura é um baiano de Acajutiba que tive o prazer de conhecer pessoalmente num encontro regional de poetas, em Minas Gerais. Morador de SP, pai da Flora e do Bento vive num pé de vento mundo a fora colando lambe – lambes de poesia como se colasse pétalas nos troncos de concreto das cidades. Ni Brisant é um passarinho que faz ninho ao contrário, desfazendo o seu por saber que um mundo inteiro não caberia nele, daí parece que o cara vai atrás de mais e mais coisas, ruas, saraus. Parece que segue e só estaciona na criptonita enfraquecedora que um super-poeta encontra no dia mais mais ou menos que existe: o domingo! O primeiro dia da semana, mas que tem moral tão baixa que chamam de último. Domingo não é descanso, domingo é espera. Toda tarde de domingo é uma quarta – feira de cinzas. Nivaldo dos Santos Brito, o Ni, é Autor dos livros “Para Brisa”, “Tratado sobre o Coração das Coisas Ditas”, “Se eu Tivesse Meu Próprio Dicionário”, “Algodão de Fogo” e está lançando seu primeiro livro de contos, intitulado “A Revolução dos Feios”. Professor em SP, idealizador e fundador do sarau Sobrenome Liberdade e um declamador nato. Ni é o terror dos domingos e a recíproca é verdadeira, então deixarei que essa relação fale por ela através da sua Literatura. Boa leitura e como costuma dizer nosso amigo poeta da coluna de hoje: CORAGEM!

Ni por Lucas Monsuelo
Ni Brisant foto: Lucas Monsuelo

Dia fraco

Chega o dia. O sol sobe mais cedo. Fim de semana renova cansaços. Leio camisetas e revistas e só encontro marcas. Roda gigante sem eixo.

Angústia indigna de vômito, escuridão pálida. Desmaio de olhos abertos. Espelho = autorretrato oco. Sem vontade de.

Sem necessidade de consultar calendário. A gente sente quando chega o dia. Dormir não arruma a exaustão. Alucinógenos não dão asas nem esquecimento. Olhar adiante faz ver retrovisor.
Aos domingos a gente não liga ou marca encontro com qualquer pessoa. Existe um pacto soberano de intimidade. Resguardo absoluto de novas aventuras. Domingo é dia de visita. Não de ficar.

Domingo é um picolé, que veio num palito de fósforo.

Convite para o maior espetáculo do mundo – sem destinatário.

O começo do domingo tem cara de feriado, amenidades, lazer. Mas ele avança. E se instala depois do almoço e da depressão pós prato. Aí sim. Âncora nos ombros!

O domingo me ensinou que não existe canção capaz de nos proteger deste presente silêncio que nos tornamos. E eu só quero atravessá-lo.

Chega um certo momento que o domingo ganha formato de fim de ano: a vida fecha pra balanço, considerações, encontros funcionais seguidos de remorsos e comidas familiares.

Para um náufrago, água é a grade da ilha. Domingo é igual. Paradoxo de si mesmo. Casa mal assombrada sem fantasmas. Ocasião sagrada, que renova o musgo do exílio que somos. Domingo é gangorra de um banco só. Ressaca mista de água benta e ácido na veia do terceiro mamilo. Última ceia do artista da fome. Macarronada para uma colher – apenas. Extensão de lutas ancestrais – disputando cada poro do couro cabeludo até a calvície genital – capaz de remodelar ossos. Não memórias.

Bukowski < Álcool

Poetas < Fome

Tempo > Saudade

Salário < Ração

Socorro < Pedido

Eu < domingo

Precisão de seis noites com 24h de madrugada na porta da frente. Rebelião consagrada à nossa babel interior, que não podemos dar cabo.

Às vezes o domingo não passa de jeito nenhum. Encontra uma gruta entre as varizes e uma situação qualquer e fica passeando a semana toda; tramando covas em cada hora vaga.

A visita acaba e só cabe que uma pessoa fique. Domingo imita a vida.

-Ni Brisant

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Domingo

Pense. Alguém tentando pôr o Cristo Redentor dentro da capela Cistina.
Estar apaixonado é quase assim, esse descabimento.

Pense. Alguém que dormiu por 28 anos ininterruptos. Estar apaixonado é o primeiro som que esse alguém dança antes de levantar.
Apaixonar-se é tomar orvalho ao meio dia quando se tem sede de cachoeira.

Pense. Alguém tentando vencer o exército de Napoleão com uma navalha. Estar apaixonado é ser a própria lâmina.

Tal qual uma dona de casa quando acaba o gás enquanto cozinha o almoço de domingo e, com o apetite aberto, consulta o bolso, onde vazio é costume profundo. Tivesse um tição, tacava fogo no inferno, incendiaria o corpo do bombeiro. Enfim, eu lhe peço fiado pra ser feliz.

O que me aprisiona? Seu tchau.

Quando você saiu da minha vida, eu não fiquei vazio. Não larguei a droga do meu emprego. Nem morri. Eu fiquei o tempo inteiro com você – só que do lado de fora.

Repare. A fotografia não gosta de quem muda. Ainda q’eu perdesse os 7 quilos, que herdei dos últimos tempos, já não seria eu naquele corpo.

Se, de algum modo mágico, os nossos dedos pudessem se abraçar novamente; seria aperto, não laços o desenho que eles formariam.

Se eu mostrasse os dentes assim, ó, igual no retrato; seria só riso, não felicidade.

Eu estive em silêncio. E no silêncio tinha você.

Aqui. O olho é só a superfície do meu coração, mas você não consegue ver, né?

Meu dente sangra sem a sua carne. E eu lhe quero, bem.

Mais poética que uma diarreia na noite de núpcias, você trovejou: Eu poderia acabar com você a qualquer hora, mas eu nunca gostei de finais felizes. Eu tentando te levar a sério e você numa crise de riso… Nervosa.

Pense. Alguém tentando contar as estrelas do céu nos dedos de uma mão. Viver um amor é ser o ano luz que se demora para virar sol.

Pra você é piegas, mas tem quem chame de poemas essas minhas partes íntimas grudadas no papel. Cem anos de solidão e nenhuma página virada.

Assim como para o sutiã teus ombros são cabides, para meus lábios: ex posição. E eram suas as cópias que amei. Todas as vezes que multipliquei meu prazer, foi por tu. Silêncio é o segredo. Sinceridade é o outro segredo. A bolha nasce quando explode. E a morte só é um espetáculo atraente porque acontece apenas uma vez.

Nem toda cicatriz é marca de luta. Nem todo mundo que pede socorro ajuda. Nem todo suicídio é em legítima defesa.

Tal qual uma uva, meu derradeiro útero foi esmagado pelos teus pés a troco de um copo de liberdade, dizem.

E eu queria ser o raio, que cai duas vezes da mesma nuvem. Ser o assassino que volta a cena no filme. O erro repetido duas ou mais vezes até tornar-se coisa de berro, burro… Queria ser gêmeos, o 14 bis, o retorno de saturno, a própria tecla repeat. Ser uma onomatopéia dessas que tocam nas FMs dia após dia. Queria ser tudo, capaz de deter o último segundo da primeira vez que fomos adeus para sempre.

Trocaria a eternidade por uma vida inteira. E largo meu time e viro ateu. Mudo de bicho no horóscopo chinês. E aposto toda a minha saúde, que ainda existe esperança em um travesseiro de alguma meretriz da Sé.

Não faça mais simpatias nem use aquele seu vestido de fulô perto de mim – quando não estiver comigo.

Teu coração é um escudo em forma de arma. E todo dia é uma dor maior, sem suas crises de ciúmes e riso.

Tanto amor no coração e a gente aqui, assim, domingo.

Não cobrarei fidelidade, carícias loucas nem declarações engenhosas. Só fica.

Amor é esse espaço que existe entre os dedos. É preciso abrir as mãos para compreender. Amor não é posse. É pertencer.

Enfim, eu lhe peço fiado pra ser feliz.

Ni Brisant

página do poeta no Facebook: https://www.facebook.com/nibrisant

Livros de Ni Brsant: http://literarua.commercesuite.com.br/loja/busca.php?loja=427793&palavra_busca=ni%20brisant

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