As Crônicas Poéticas de Jaques

Jaques
Ficou uma vida na fila do pão,
Mas só queria um sonho

-As crônicas poéticas de Jaques
#guarnier

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Jaques gritou por socorro
Acordou toda a vizinhança
Ninguém foi capaz de ajudar
Ainda lhe deram um esporro.
Jaques foi dormir
E prometeu gritar por ajuda quando fosse dia
Trancou-se no mesmo quarto escuro
Com tudo que o angustia.

-as crônicas poéticas de Jaques
#guarnier

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Jaques é padeiro
Ele faz amor
Antes dos sonhos.
#guarnier #crônicaspoéricasdeJaques

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Jaques, o atento
Escravo da realidade insone
Manteve-se alerta para as oportunidades,
Não dormiu por uma eternidade
E todos os sonhos que poderia conquistar
Naquelas noites perdidas
Jaques deixou passar.

-as Crônicas Poéticas de Jaques.
#guarnier

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Jaques, o ingênuo,
Bebeu até a última gota
O veneno disfarçado de mel
Que lhe puseram na boca.

Quem lhe desejou um fim triste, fracassou.

À beira da morte,
como fez em toda sua vida
Jaques, o bom, filosofou:

“Os puros de coração
Se alimentam da palavra,
Vivam com meu perdão.
O que para os bons é remanso,
Para vocês, é assombração!”

-as crônicas poéticas de Jaques, a partir de agora,o padeiro fantasma.
#guarnier

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Jaques andava na rua
Parecia perdido,
mas não estava.
Jaques sempre colhia
Um buquê para sua mãe
Com os beijos que
Brotavam na calçada.
Ele corria,
Quando enchia as mãos
Entregava seu amor.
Jaques dava beijos-flor
E beijos-boca, ele ganhava.
Sua mãe era margarida
Flor cansada
Já de poucas pétalas
De pétalas mal usadas
E de tantos Bem-não-me-queres,
Margarida, flor amarela
Ficou flor velha,
Flor velha, amarelada.

-das crônicas de Jaques, o observador.
#guarnier

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Jaques quebrou o espelho
Preferiu ter sete anos de azar
Do que ter a vida inteira
Pendurada na parede.

Ele não mais ajeita o cabelo,
Ajeita a alma
Pra sair de casa
E se jogar no mundo.

-As crônicas poéticas de Jaques
#guarnier

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E entre uma cerveja e outra,
Jaques filosofou:
“Quem não acredita em unicórneo
Não procura chifre
Em cabeça de cavalo.”
Uns ouviram,
Outros só contemplaram o óbvio.
E os dias seguintes
Foram iguais
A todos os outros,
Pois não havia motivo
Para serem diferentes.

– das crônicas de Jaques

#guarnier

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Jaques
Daria um buquê,
Mas presenteou sementes
Quando percebeu
A Flor que tinha nas mãos.
Optou pelo punhado de vida
Em vez de oferecer
Uma iminência de morte à sua amada.
E enquanto o amor florescia
Eram os espinhos dela
Que Jaques afiava,
Espetava-se minuto pós outro,
Sangrava por extremo zelo,
Quando ela dormia
Ele ajeitava, as pétalas de seu cabelo.
Como nada tinham a perder
Os dois fugiram
Mas a viagem terminou
Na estação errada,
Acabou-se a quimera
Jaques seria outono
Flor seria destino,
Pois era primavera.

Jaques ficou pensativo
Desceu em qualquer estação
Não sabia explicar
Se viveu um sonho de amor
Ou se sonhou um amor de verão.

-As Crônicas Poéticas de Jaques

#guarnier

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Jaques, não tomava jeito.
Era um cão sem dono,
Mulher de malandro.
Amava a vida,
Mas a vida batia
E ele…
Sem forças pra revidar
Descontava tudo
Na pobre da poesia.

-As Crônicas Poéticas de Jaques

#guarnier

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Jaques, o só
Tenho forte lembrança daquele homem velho que descia a rua todas as manhãs com sua mala, chapéu e guarda-chuva pretos. Dava Passos longos e contínuos numa cadência ininterrupta, mesmo que fosse para corresponder os desejos de “bom dia” da vizinhança. Assim descobri seu nome, ou como lhe chamavam todos: Seu Jaques.
“O senhor Jaques é brasileiro?” Perguntei a uma vizinha, que tinha bobs no cabelo, vestido de chita, meias brancas e laço de fita. Ela disse que era sim, mas só a metade. Depois voltou atrás e disse que ele era estrangeiro, mas só a metade. Mais uma vez desistiu da resposta e afirmou que ele era mais ou menos brasileiro e mais ou menos estrangeiro e confirmou dizendo que achava que talvez tivesse certeza da resposta dúbia que deu. Eu me fingi satisfeito dentro da minha insatisfação. Agradeci e Pensei comigo: “acho mesmo que Seu Jaques é estrangeiro!”
Tinha nos olhos a segurança de um homem cumpridor dos seus horários, eu os olhei fundo por uma, ou duas vezes enquanto ele, sem nunca parar, me cumprimentava levantando o chapéu, a testa e as sobrancelhas dizendo: “bom dia, italianinho!”. “Que máximo! Seu. Jaques também acha que sou do estrangeiro”, bradei de cima do meu muro enquanto ele seguia rumo ao sol que nascia no pé do morro entre os galhos secos do velho eucalipto. Seu Jaques se transformava numa silhueta determinada a sumir das minhas vistas.
Um dia, logo depois de ouvir o já tradicional “Bom dia, Italianinho!”, esperei o senhor se afastar e fui atrás dele, me esgueirando entre os postes da rua para que não fosse notado. Seu Jaques seguiu rumo ao sol, numa reta tão constante quanto seus passos. Parecia ter destino no desconhecido. Era como o vento… só ia. Voltei para casa.
No dia seguinte, aos dias anteriores aos meses que o segui – cada vez para mais longe – só o vi passar, me cumprimentar com a mesma frase, os mesmos passos, o mesmo sorriso e a mesma cadência. Dessa vez eu não fui atrás. Dentro de mim uma despedida pelo bem de um amigo. Seu Jaques só queria seguir para onde ninguém sabe e sempre vir de onde ninguém queria saber. Seu Jaques, o só, me viu crescer por muitos dias em poucos minutos. Viu-me sorrir por muitas vezes, por poucas palavras. Vigiou-me andar por muitas distâncias sem por os olhos em mim. Seu Jaques era um guia que não me guiava e nessas andanças de irreprimível cadência, ensinou-me a arte do ir e vir com gentileza e paciência.

-As Crônicas Poéticas de Jaques
#guarnier

 

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