Cartas

Carta VI – brevíssima espera infinita

Ansioso pelos dias quentes do inverno, ponho-me, na janela, a aguardar as tardes frias do distante verão. Nada está completo ou a contento.
Nada é meu e mesm que fosse, não seria.
As sombras das Mariposas dançam e volta das plantas, mas eu não as vejo. Seria bom vê-las. Oro em nome do que desconheço, mas sinto. Assim como nunca vi o amor além de em teus olhos, mas sei que ele existe.
Como seria infinito e ilimitado um espaço florido contigo! Mas se tenho flores, não estás perto.
Porém se tenho a ti, as flores se conformam em não serem tão importantes assim.
Sei que o dia está lindo só pra me consolar da tua breve ausência. Escolho pensar, portanto, só na tua imagem, na mais bonita e a que mais me ilude, a que torna todas as incompletudes perfeitas e faz as metades de tudo serem suficientes. Elas sabem que longe de ti são composição, simplesmente. Resignam-se.
Faça-me o favor, quando voltar para o quarto, traga água. Na boca, de preferência.
#guarnier #mariposaemmim

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Carta V – Tratado sobre reflexões acerca do amor – ou a falta dele.

Oi!
Obviamente também não se trata de uma carta feliz, acho que ao contrário de você, que fez as malas, me falta o que fazer mesmo, por isso, escrevo. Se não quiser ler, nem abra a carta, mas como terá que abrir para ler que não precisa ler, então leia até o final, não custará nada e o que tenho a lhe jogar na cara é abstrato, não corta a pele.
Viu lá o título? Parece coisa de academia, né? mas, salvo algum desocupado queira discorrer sobre dor de cotovelo – nunca duvide de universitários, sobretudo os marxistas – é só uma carta mesmo, ou outra, já que não tenho certeza se leu as anteriores… enfim.
Estava ontem divagando na sala enquanto as professoras divagavam sobre Saussure, Cliford, MC’s e nostalgias acadêmicas, bem agradáveis, por sinal. Ah, você nem sabe que voltei a estudar, também não é da sua conta… Estava lá no canto da sala e me incutiu uma série de questões sobre tudo que não tinha absolutamente nada a ver com a aula, acho que era o cansaço… voei! bom, na verdade viajei nuns termos que repetimos sem pensar nos absurdos pragmáticos que eles representam, por exemplo: Morrer de amor. Tamanha incoerência o tal “Morrer de Amor”. Não se morre no amor, só na falta dele, percebe? Morre-se na saudade, que é a distância, ou ausência do amor. Pense que “morrer de amor” está para a vida como um peixe que morre de sede – impossível! Porém, morrer de saudade está para a vida como um peixe que morre afogado, pois onde entra a saudade, não pode haver, obviamente, o ar. Definitivamente, saudade e oxigênio são adversários e um corpo é país pequeno demais para estes dois. A coincidência disso, é que o corpo é meu.
Era só isso mesmo, espero que tenha entendido. Sabe… essa casa cada vez mais se parece com um aquário cheio de saudade, queria eu ser um peixe fora mágoa,
tchau.

#guarnier

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Carta IV

Oi!
Sim, é uma conversa fria. Recebi umas correspondências por baixo da porta hoje. O carteiro se recusa e olhar pra minha cara. Devo estar assustador vestido de mau humorado. Mas não foi pra dizer isso que estou escrevendo. É que o cachorro morreu. Pobre! Não foi de fome, nem de sede, tampouco de frio nessa cidade infernal, já de calor, não me espantaria, mas acredito que tenha sido de monotonia – rima não proposital. Ele só morreu. Não me culpe por mais isso. A planta da janela também morreu. Não foi por falta d’água. Secou. Cada dia menos verde, até que nenhuma esperança restasse. Morreu! Virou adubo do próprio vaso, veja que poético isso. Não… Não é sarcasmo, sei que pensou nisso quando leu o trecho anterior. Não tenho disposição pra sarcasmo, você não está aqui pra rir. Se riu daí, não foi certo, pois meu sarcasmo também morreu. Enfim…
A dona do 104 se mudou. Antes que ligue pra perguntar, se mudou dessa pra melhor. Entendeu? Você não deve mais aquela visita que prometeu a ela quando foi embora de casa. Como eu sei? Ela me contou – a velha fofoqueira que você defendia. Depois pego o nome do seu novo lar, quadra e jazigo e você paga a visita. Isso também não foi ironia, só eufemismo, minha cara. Minha ironia morreu. Não tem razão de ser irônico, já que não tenho mais quem critique duramente essa minha antiga virtude. Bom, espero ter sido, gratuitamente, esclarecedor e que receba essa carta com ânimo, por mais mórbida que ela pareça. Ah, sim… Escrevo porque não tenho mais luz – nem a própria – e consequentemente, não tenho como acessar internet, senão mandaria mensagens. Já não tenho há um mês. Já não tenho mais nada há um mês. Tenho a grana, obrigado por oferecer, mas perdi as contas das vezes que desisti de sair de casa para pagar as contas que ainda vêm em seu nome. Elas venceram, eu não.
Tchau!
#guarnier

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Carta III

Oi!
Tenho que dizer que ando refletindo muito sobre como a vida acontece. Cheguei à várias conclusões, mas uma que eu criei me encheu os olhos. Sim… de águas. Águas por todos os lados num rio de perder as vistas, curvas mansas, corrente mansa… A vida, um barquinho à velas brancas sopradas pelo cochilo de Deus. Teu barco ao meu lado, mas longe o suficiente para nem nos conhecermos. O curioso disso tudo era que o rio mesmo não se enfurecia, sempre manso e doce, a fúria vinha de dentro dos barcos. Nossas vidas, relações, famílias, frustrações… nosso inferno somos nós.
Deus no cochilo empurrava os barcos e nos resmungos entre os sonos dizia que todos jogassem seus restos e tristezas nas águas e seguissem, disso eu lembro muito bem, mas sei que alguns, talvez você, não ouviram direito e estocaram mágoas.
No dia em que paramos na mesma praia, os dois barcos quebrados, nos olhamos e decidimos juntar peças para reconstruirmos somente uma embarcação. Desde então venho te velando. Como as velas do nosso barco. Sei que ainda há uns restos de mágoas em alguma mala sua, quando vejo, a única coisa que me pergunto num lamento é: Onde estive eu quando não pude te proteger? Eu sei que não tive culpa. Eu sei que você vai me dizer isso. Eram barcos diferentes e todos erramos. Só não me peça para lamentar erros se foram justamente eles que me puseram no mesmo barco que você. Se tivermos que errar agora, que seja o caminho, não vou me importar onde vai dar, só tenho um destino e ele se move, me cega os olhos e me puxa pela mão quando quer me beijar. Que Deus nos sopre a vela da vida até que a imensa cachoeira nos transforme, juntos, em fumaça colorida.
#guarnier

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Carta II

não sei em qual das estações desci apressado. Era verão, e ainda sim era gélido sem você.
Contei 60 dias pendurados no relógio da parede. Nem eram dias, talvez fossem horas, quem sabe até minutos… essa preguiça do tempo não alcança tua volta e isso me faz andar sobre o mesmo metro de chão infinitamente. abro e fecho os olhos, mas a oração é sem efeito, deve ser porque não a faço pra Deus, faço pra você.
vi as plantas crescendo no jardim da vizinhança na exata proporção da sua demora, enquanto as minhas não floresceram, morreram segurando os botões à sua espera.
quero estilhaçar essa distância e reconstruí-la menor. talvez de onde possa te tocar a corpo nu, pois meus olhos já cegaram a saudade pra que ande mais devagar com medo do tombo. Creia, qualquer centímetro a mais é uma letra a menos na minha sanidade e no seu retorno e eu já reinventei todas as metáforas sobre as faltas e todas já me pisaram com pontiagudos saltos no peito. Isso tá virando uma cena de filme brega com trilha sonora da Maísa. Rebobino as lembranças involuntariamente e isso não faz bem a ninguém, agora vou tomar esse porre e desejar que seu carro quebre, que sua conta bancária seja bloqueada e que sua cafeteira queime . Assim te carrego no colo, te empresto uma grana e te sirvo café na cama. Esse mal, pode ser um bem comum e todo esse blefe não passa de uma carta encomendada pelo poeta que em mim reside. Estamos bem e mundo que se exploda! Ah… mudei a decoração da sala e espero que goste. Tem a metade de um sanduíche que guardei pra você na geladeira. Tem uma rosa na mesa também e te peço que embace o espelho do banheiro com seu hálito, escrevi que te amo Lá.
#guarnier #mariposaemmim

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Carta
Hoje é um bom dia pra você se mudar.
Não vai chover, eu sei que não vai. Olhei a previsão do tempo durante a semana, esperei o tempo certo pra te escrever, calculei o tempo que gastará entre a sua e a nossa casa, medi, mentalmente, o tempo entre você largar suas bolsas e correr pra me abraçar. São exatamente dez passos, um sorriso longo, um abraço demorado e um beijo eterno. Eu tiro suas malas do meio da rua, prometo que tiro. Depois, o tempo de entrar, sentar, conversar, acertar os pontos e deixar certezas de lado, passa num tempo curto, a gente nem vai ver, te garanto.
Você arruma as coisas, eu cozinho.
Você troca a roupa, eu me sirvo.
Você forra a mesa e eu me doo.
Eu não tentei medir o tempo depois disso porque nesse momento, o tempo parou. O sol fixou-se ao meio-dia. A comida conservou-se quente e tudo que era tempo, foi feito em tempo.
Hoje está um dia lindo pra se fugir de mágoa, eu olhei o horóscopo, a parte que nos interessa é linda, a que não nos cabe, deixei para os outros signos do Zodíaco. Eles que se lasquem hoje, não há tempo pra altruísmo, baby. Nosso egoísmo, Deus perdoa, esteja certa disso. Porque hoje está um dia lindo pra se deixar a saudade de lado, morta, esquartejada, numa oferenda na esquina. Ali é o lugar dela. Deixe-a sangrar só. Porque hoje, hoje o dia está lindo. Lindo.
Arrume as malas, guarde tudo, só não guarde o amor, esse você pode trazer nas mãos pra jogar na minha cara quando chegar, não vou me defender, prometo que não.
#guarnier

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