Sobre

Tenho a vida dividida em antes e depois do militarismo. Antes era um moleque da periferia, soltador de pipa no Morro do Eucalipto e aluno do CIEP. Trabalhador desde os oito, pedi minha primeira demissão aos nove, mas nunca deixei sumir a infância, por minha conta e risco. Entre cadáveres, cerol, linha dez e pipa, o riscado de caco de tijolo no asfalto limitando o pique garrafão era o treinamento pra vida. A metáfora que dizia: “fora do teu quintal, se não correr, leva porrada!” Depois vieram os primeiros acordes no Tonante vermelho e preto e os primeiros poemas. Foi assim até 1998 onde o muleque passou num concurso e incorporou – de camisa do Nirvana – no CFN da Marinha do Brasil. Três anos e meio num mundo paralelo que quase me converteu na crendice da violência. Aos 21, abrutalhado, esqueci da Arte na minha vida e quando me vi fora daquela mentira com bons amigos, entrei em parafuso e voltei pra violência que é o mundo aqui fora, com a diferença de que aqui, não há a desculpa do treinamento de guerra. Aqui a guerra é real. Pirei! Droguei! Fugi! Morri! Voltei!

Um dia me vi numa sala de aula de Teatro. Acho que sumi lá dentro e nunca mais saí. Então a Literatura e a Música retomaram seus lugares em mim. Graduei em Lingua Portuguesa e suas Literaturas, especializei em Orientação Educacional, escrevi e publiquei livros e fanzines e fundei Sarau. Hoje a Arte é tudo do pouco que tenho. E ela não é boa e nem má. Ela só É. Bandida. Posseira. Marginal. Está em tudo, sobretudo na Rua. Quando cai a chuva, ela escorre pelo canto do meio fio de todos os becos e ruelas e quando cai pelo bueiro, todas as Artes se misturam nas galerias do estômago da cidade que vomita nos valões, que vomitam nos rios e nos mares que condensam e devolvem tudo chovendo sobre nós. E tudo acontece de novo, e de novo, e de novo… A Arte Marginal é sempre orgânica. E esse é um blog somente dela.

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