Sonetos

Depressa, olho um céu encoberto
Uma rajada, vinda do nada, surpreende
É o vento costurando os brotos de concreto
Antes que a chuva roube tudo numa enchente.

Corro. Subo escadas dum sobrado deserto
Ofegante, conto os anos nos degraus regressivamente
Do alto, sem carteira, gravata, descalço e liberto
Proclamo à cidade: sou um indigente.

Para que limpe de mim esta existência
Confesso à tempestade, ser um herege
Ansiando do beijo de um deus, a saliva

Reafirmo minha lucidez na demência
Invoco um relâmpago mortal e breve
Para que do homem, reste um esboço em carne viva.

#guarnier

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Ah, que flores eram aquelas?!
Pintavam os brancos dos olhos tristes
Como o artista que deixa em branca tela
Toda a aquarela com seu pincel em riste

Ah, que lindas flores na janela!
Símbolo de todo amor que existe
Sabido que o destino sem cela
É o selvagem que na liberdade insiste.

Sim! Ouviste!
Será mesmo teu amor de outrora
Que desembarcou nesta boreal aurora?

Não! Desiste!
Nada lá fora, toda tarde, a mesma história:
Só saudade, só lembrança, só memória.

-soneto flores na janela
#guarnier

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Sim, sofro desta má influência
Sofro deste mal incurável
desde minha adolescência
Cometo este crime inafiançável.

Não sei a que mau santo devo penitência
Ou como me livrar desta sina insuportável
Pois tive que me acostumar nesta existência
A me sujeitar a este encanto inquebrável

Portanto, lanço neste soneto mal medido
Maldição sobre o criador do Macário
Em seu leito de morte infinito

Que pague pela minha alma,em tê-la corrompido
E eu adquirido inacabável boleto bancário
Simplesmente por admirá-lo, e por isso, delinquido.

-para Àlvares de Azevedo
#guarnier

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Miro o papel em branco
E ponho-me a escorrer
Recolho num copo meu pranto
Este é o soro que devo beber

O taquicardia não é espanto
Nem é sinal do enlouquecer
É somente o breve último encanto
Antes que eu venha a perecer

A morte é passageira
Estrada só de ida, derradeira
Entrego todos os meus poemas a você

Minha estranha mensageira
A esta entranha vida inteira
Abdico por não poder te ter.

-soneto em resposta ao mal do século: amores não correspondidos

#guarnier

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Procuro, em ti, sinais de saudades reprimidas
No sorriso, o estrago dos tragos
E nos teus olhos, encontro, sepultado
O destino fúnebre da Atlântida perdida

fecundou meu amor numa gravidez abortiva
Reservou ao feto velhos trapos,
Armazenou seu resto num frasco
E não queres que eu te maldigas?

Não há absolvição para teus atos,
À tua companhia, prefiro a dos ratos
E não tenha mais em mim, o braço que te socorra

Pois na exumação dos fatos
Viveremos e morreremos separados
Eu,Sodoma. Você, Gomorra.

#guarnier

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Louca! Digo e repito: Louca!
Ainda sim insisto na cansada voz
Vomitar-te impropérios pela boca
Antes amordaçada por cegos nós

Não esquecerei todas as canções roucas
Cantadas em profunda dor
Enquanto me atiravas as louças
Maldizendo este verdadeiro amor.

Saí! Saí pela porta da frente.
Lugar maldito, antes não tivera encontrado.
Não teria ficado assim, tão despedaçado

Fugi, dei uma volta completa no mundo
Corri tão intensamente, tão desesperado
Que quando percebi, estava aqui,de novo,feito bobo,ao teu lado.

#guarnier

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Onde tu moras,
Senão nestes espinhos?
Pois mesmo em tão doce aurora
Salga-me o peito, a falta de teu carinho.

Quão forte paladar sanguíneo
Afronta-me o teu gosto do beijo
E como rima de Noel, desejo
E encontro em você meu declínio

Escolha! Ou corta-me a garganta do diabo
E expõe meu amor emoldurado
Nas paredes da galeria do cinismo

Ou prometo, num dia ou n’outro
Sentir meu corpo nulo em peso morto
A planar por ti, num majestoso abismo.

#guarnier

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Senhor, acho que pequei,
Pois me acertaram uma pedra.
Quem jogou ou mirou, não sei
Não vigiei, não estive alerta.

Pai, eu sei que pedra não se atira sozinha.
Fui réu e vítima em cumprir o destino
A pedra não teve culpa, a culpa foi minha.
De ainda ser menino avoado, ser avoado menino.

Não vi o coração que me atirou isso.
Foi minha a culpa de pecar na hora errada,
De errar no local errado?

Então Senhor, se dentre eles
Houver quem nunca atirou pedra,
Permita que me atirem primeiro o pecado.

#guarnier

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Esta tarde jaz aqui
Junto com toda alegria constante
Rejeitando nesta boca, seu implante
Entre tantas outras que já vivi

Tu me vais descartando como flores
Arremessas em mim pétalas e sementes
Cantando mentiras sinceramente.
Despedaçando-me em mil cores

Onde meus clamores serão ouvidos,
Senão por outros corações?
Mata-me e vive-me com seu cruel rito.

Vou chorando esse lamento em danças,
Sobre todas as minhas suas lembranças,
Deste fim de tarde eterno e maldito.

#guarnier

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